Nas
horas escuras da noite, quando o peso costumeiro do domingo se soma à
densidão da paisagem, mais densos pensamentos podem se apresentar. Na
estrada deserta, o carro passa uma ilusória sensação de segurança
reforçada pela carcaça de metal e plástico que separa o viajante
solitário do mundo que permanece lá fora. O som do rádio ajuda neste
sentir, invocando uma comunhão tecnológica com a sociedade, com o socius
oculto pressuposto por uma vida parida da filogênese. Mas era um dia
atípico, os ecos alcoólicos de um sábado que se estendeu ainda
percorriam túneis mentais e infligiam a mente com estranhos pensamentos
e sensação de fragilidade existencial. Naquela altura do Pintado, a
estrada era uma reta onde a única fonte de luz vinha dos faróis do
carro que conduzia, alumiando cada placa à beira do caminho vazio.
Pouco acima da linha do horizonte, um céu cheio de nuvens que se
tornavam vermelhas sobre os esparsos montes que salpicavam a paisagem;
e a cada tanto de tempo, as nuvens se acendiam com relâmpagos
intermitentes. Em cada lado, atrás e adiante, só cresciam massas
escuras de matas e morros, e mesmo as plantações, tudo parecia
intrinsicamente hostil, lar da vida selvagem, morada dos mistérios
noturnos e de tudo que incessantemente avança contra a tendência
luminescente da mente humana.
Já
fizera esse caminho mil vezes, mas a estranha conjunção de fatores
pintou um quadro diferente nesta vez. Impressiona como um enquadramento
diferente pode resultar em todo um peso próprio à mente, em uma
percepção rara ou na possibilidade de colher pensamentos inusitados.
Nesta noite, acabava refletindo sobre a ilusão de potência
proporcionada pelo automóvel, percebendo que, de fato, dirigindo ou
não, concretamente estava naquele lugar. O carro favorece uma impressão
de união blasfema entre homem e máquina, de modo que o homem sente que
a potência do carro é, de algum modo estranho, sua também; ele sente a
velocidade, a força e as possibilidades como se fossem, até algum
ponto, suas. Quando se dirige pela estrada erma e noturna, sente-se
seguro, afinal não se está ali, mas apenas ali dirigindo. Enquanto
isso, a realidade é de um corpo transitando a 100 km/h por aquele lugar
pouco convidativo. Apenas a carcaça separa. O hábito também favorece a
percepção, pois se sente que somente se estará naquele lugar de fato
caso o carro tenha algum problema mecânico ou ocorra um acidente; de
resto, aquele local permanece como passagem, como uma virtualidade
pouco atualizada para o homem em seu carro. É quando se consegue sentir
estar no lugar, mesmo que dentro do transporte moderno, que um primeiro
sentido de terror se apresenta, pois o fato de se deter naquela
paisagem noturna e desabitada se torna um pensamento desolador.
Tenho
visto muitos documentários e entrevistas sobre temas "ufológicos", o
que me deixa constantemente pensativo sobre estes fenômenos,
indagando-os por ângulos pouco habituais. Naquele domingo, tinha ouvido
Brazil Ufo, onde o ouvinte Carlos Eduardo Pozza contribui com seu
relato pessoal ocorrido no interior paulista. A princípio, de ufológico
o caso não tinha nada, a não ser a presença de um estranho humanoide e
a perda de consciência da vítima seguida de tempo perdido até o
recobrar da consciência. Carlos conta que andava pela sua cidade
quando, caindo de um poste, surgiu em sua frente uma figura humana
feminina que devia ter uns três metros, cabelos longos e muito claros e
pele branca. A figura estendeu a mão em direção de Carlos e, ao fazer
isso, o mesmo perdeu sua consciência, acordando em um banco de praça
horas depois do encontro. Carlos teria passado dois dias com um gosto
amargo na boca e um incômodo nos olhos. Anos depois teria desenvolvido
catarata. Independente da veracidade do relato, este compartilha muitas
características com toda a literatura dos encontros com humanoides. São
momentos estranhos que parecem fora do tempo, como se os sujeitos das
histórias cruzassem por alguma combinação estranha de fatores e, disso,
surgisse a raríssima possibilidade de ter um momento com essas
entidades misteriosas, normalmente humanoides, que agem de modo
irracional e deixam profundas marcas nos que cruzam seu caminho. Os
misteriosos seres são de todos os tipos: robóticos, reptilianos,
peludos, nórdicos, morenos, cinzas, pequenos, enormes, telepatas,
bestiais etc. A impressão que perdura é de que eles podem surgir de
qualquer lugar em locais mais remotos, fazendo com que a pessoa perca
sua consciência e acorde muito depois, muitas vezes com poucas memórias
do sucedido. Curiosamente, eventos de mesma estrutura, antes da
popularização da vida alienígena, costumavam ocorrer dentro de
estruturas míticas: fadas, elfos, vampiros, visagens, demônios e
outros. Entre tais estranhos fenômenos, o que decorre do seu estudo é a
sensação de que há sempre a chance desse inexplicável invadir a
realidade e produzir este encontro com o terrível, com o anormal – o nefando.
Como se, assim como há sempre a pequena chance de ocorrer um infortúnio
ou acidente, houvesse um parâmetro pelo qual, no extremo da medição das
improbabilidades, houvesse a oportunidade de se realizar um encontro
com esses visitantes vindos do "fora".
Na
hora noturna na estrada, pensava nesses detalhes que fazem da
existência algo de misterioso e assustador, mesmo que não faça parte
das preocupações comuns das pessoas focadas em suas vidas cotidianas –
até que aconteça com elas, claro. Já foram muitos os casos de encontros
tenebrosos em estradas vazias no decorrer da noite. Mesmo que fosse a
mera visão de algo parado junto ao acostamento, alguma criatura
estranha, ou mesmo uma pessoa que encarnasse em si o signo do estranho
– algo que não devia estar lá
– , já bastaria para formar uma visão desconcertante. Quantas pessoas
que, por motivos de maior urgência, precisaram transitar sob as
estrelas naquelas paragens escuras de mata, morro e beira de rio e ali
se depararam com figuras tenebrosas vindas de outro lugar? Quantas
casas velhas de madeira não serviram de proteção contra coisas
estranhas que rondavam nas proximidades nas primeiras horas de uma
segunda-feira? E as pessoas que, por ventura, saíram da comunhão da
sociedade humana para os catálogos de desaparecidos após o encontro com
esses viajantes da noite?
Enquanto meu pensamento fazia seus próprios voos noturnos, seguia em crescendo
a fragilidade existencial. Alcançava aquele nível incomum de sentir que
a realidade poderia, de um momento a outro, romper em sua estrutura e
permitir entrar, por algum tempo, o desconhecido. Este é o estado que
faz subir pela espinha o arrepio, como que eriçando um órgão invisível
atrás da nuca, um órgão ligado à morte e a tudo que transcende nossa
linguagem e aparelhos sensórios humanos. O mesmo órgão responde às
meditações sobre finitude e morte que se seguem de um velório ou de
momentos muito específicos ao redor do fogão à lenha onde se invocam
causos de visagem. Nesta hora, percebe-se que o império diurno do
homem, o mundo da razão, traz uma couraça protetora tal como o carro;
enquanto avança pelas horas escuras do mundo e do universo, uma
sensação de conforto é criada pelo homem e para si mesmo para que possa
seguir existindo. Essas construções possuem o modo de abrigo, tal como
possuem a razão, muitas crenças e o próprio fato de não se estar
sozinho no mundo, tendo outros semelhantes para firmar um sentido em
meio ao caos natural que cresce sem folga ao redor. Momentos como esse
possibilitam uma solidão mais própria, um vislumbre da finitude e de
coisas que invariavelmente nos delimitam como conhecedores limitados,
presas fáceis de algo que nunca conseguimos compreender ou tocar, de
presenças invisíveis que surgem sem que possamos prever. Não somos os
senhores desta Terra assombrada, mas vivemos rodeados por uma escuridão
densa e indecifrável como a massa negra que se tornava a floresta e os
morros ao lado da estrada.

Há
uma grande dificuldade para o homem moderno perceber isso, ou mesmo se
imaginar naquela mesma estrada que cruza com seu carro, mas desta vez a
pé, sem o celular, vagando arrodeado pela noite, com suas nuvens
vermelhas iluminadas por relâmpagos acima e sua mata densa por toda
parte. Certa vez, fui da cidade a uma cachoeira a pé, sozinho, saindo
pela tarde. O caminho até lá é feito pelos trilhos desativados de trem,
que são cercados por paredões de pedra, morros e florestas. É um local
sem civilização em sua maior parte, onde os animais transitam e não se
ouve voz humana. Cheguei à cachoeira já quando anoitecia, precisando
refazer aquele longo caminho de cerca de 3 horas pelos trilhos, no escuro
e sozinho. Encontrava-me cercado por grandes paredes de pedra e, em
outros trechos, inclinações cobertas de mata e grotas as quais até
durante dia a mata faz escuras. O trajeto foi perturbador, a sensação
de estar sendo constantemente observado por olhos silentes na mata e
olhando para a única intervenção humana no terreno: os trilhos que eram
o único pedaço descampado do caminho. É como se, na escuridão da noite,
na solidão em meio ao mundo natural, qualquer coisa pudesse irromper a
comodidade da realidade humana e levar dali para sempre a pessoa que se
colocou em tal condição desprotegida e solitária. É algo que poucos,
hoje, conseguem compreender, um terror enterrado com nossos
antepassados, com a lápide desgastada colocada sobre a terra pela
modernidade, como se fosse um símbolo de algo perdido e que hoje se
revisita indiretamente em histórias de terror e sobrevivência, mas sem
real acesso à experiência.

Há
um livro de Antônio Cândido intitulado Educação pela Noite, onde dispõe
textos com análises literárias, sendo a primeira, focada em Álvares de
Azevedo e homônima ao livro. Explica que a educação pela noite
imaginada por ele partiria de conotações de mistério e de treva, uma
noite não apenas externa, mas também a noite interna que envolvia
certos escritores. O propósito aqui é outro, mas vale perguntar: de que
forma a noite pode educar? Em nosso caso, essa fragilidade existencial,
o poder da treva costeando o domínio do ser, junto às suas incertezas e
anunciação do mistério – que pode, garanto, manifestar-se de formas
horríveis em fenômenos sinistros e reais – pode trazer um senso
meditativo de realidade. A vivência da noite na forma aqui retratada
joga o ser em meio à noite mais própria que é a aproximação da própria
possibilidade de finitude, isto em sentido bastante heideggeriano. Se a
morte é a experiência mais própria e também mais misteriosa, da qual
não se volta para relatar, ela estipula uma barreira final com o que
está mais além, conjugando em seu campo imaginal hordas de seres e
mundos incertos e sobrenaturais. Experimentamos a morte ou uma intuição
da mesma em sonhos e em experiências atípicas, mas ela em si permanece
como possibilidade máxima e de maior mistério. Ao se situar em seu
campo, seja na meditação da morte ou na estrada obscura onde se vê
cercado pelo mistério e pela fragilidade existencial, possibilita-se um
senso de realidade que parece ofuscado no mais das horas em que as
garantias corriqueiras e os variados abrigos suspendem seu perfume sepucral. O
vivenciar desse estado do ser, mais que tudo, por um mistério de
inversão, permite que se desvele um novo sentido de vida. Ao tocar a
realidade da fragilidade do ser, a eterna proximidade da morte e do que
anda junto com ela, é que se permite atualizar a visão da vida e do
dia. A fragilidade existencial convoca à admissão de uma vida sempre à
mercê de seu fim, dando espaço para a tomada de ação dentro do mundo. O
tom solene com que se tratava a morte e seus seres no passado faz de
todo esse processo algo santo, memento mori
que traz o ser para mais junto de si e da sua condição de vida dentro
das suas possibilidades existenciais, que frequentemente são
enegrecidas pelas ocupações cotidianas e o arrastar monótono dos dias.
Contudo,
não há que se prender somente nesse aspecto pedagógico da morte e das
experiências sombrias. Lá fora realmente caminham perigos e
possibilidades impossíveis que podem cruzar o limite imaginário que
chamamos de possível. Ainda se pergunta se o conhecimento dessas chances pode aproximar de alguma maneira uma pessoa dos visitantes do fora
que protagonizam os encontros sobrenaturais antes mencionados. Pensar
nessa hipótese não faz mais que aumentar o terror em momentos de
mórbida lucidez. A questão que se levanta é de que as experiências como
a mencionada, onde se percebe cercado pela possibilidade mais nefasta,
onde se sente parte de um mundo abandonado às forças obscuras, diante
da própria finitude e fragilidade existenciais, permitem uma série de
reflexões sobre nosso local entre tudo que ocorre. Os abrigos
cotidianos, cuidadosamente criados por nós a modo de tornar a
existência suportável, removem o ser dessas camadas mais profundas da
existência, camadas que, mesmo em sua característica aterradora, também
possuem um valor a ser admirado e que falta ao homem moderno. Ao homem
de hoje, tendo-o por aquele que vive entre muitos abrigos e longe de
uma experiência antes comum de se estar nessa condição de mundo,
sentindo este mundo em todo seu peso e distante das obras humanas, falta algo
desse contato. No entanto, o acréscimo de níveis de virtualidade na
experiência deste homem novo é algo desconhecido ao antigo, cuja
penetração não passaria dos livros, das histórias, do rádio ou no
máximo dos programas de tv. Possivelmente, novas formas de experimentar
o horror da finitude e dos mistérios que andam além dela estejam sendo
codificadas neste exato momento no cyberespaço, aguardando o tempo de
abraçar com escuridão a humanidade, trazendo consigo novas formas de
horrores jamais imaginadas.
Porto União, Pintado, Pintadinho, Santa Catarina, Nefando, Cachoeira do Km13,
‧͙⁺˚*・༓☾
☽༓・*˚⁺‧͙
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